domingo, 6 de fevereiro de 2011

Uma solene homenagem!

Caro(a) Leitor(a)

Quantos de nós presenciamos ou vivenciamos a perda de alguém que nos é chegado ou que marcou alguns momentos da nossa vida, independentemente do grau de parentesco, ou a inexistência dele. Quantos de nós percorrem o pequeno caminho da nossa existência, enquanto tal, envolto em intrigas e zangas valorizando o acessório e dispensável. Quantos de nós, não estamos presentes o quanto deveriamos estar, junto de quem nos ensina e partilha momentos de autenticidade, sabedoria, convivio fraterno e puro. Não importa a quantidade dos momentos vividos com alguém que nos é próximo mas sim a forma de estar que empregamos em cada um desses momentos. 
Hoje partiu uma pessoa que pela sua idade, transmitia uma força e alegria de viver espelhada em cada um dos poucos momentos que estive com ele e assim foi até ao fim, sempre com a esperança de que os tratamentos iniciados poderiam colocar o fim a uma doença que já não tinha solução. Partiu concretizando o que foi possível concretizar, deixou o que foi possível deixar. 
Nas cerimónia fúnebres recordei por breves momentos o "Vendedor de Sonhos" quando no seu caminho encontrou um velório. O mestre foi pedindo espaço para a multidão. À medida que se aproximava do caixão, as pessoas pareciam sofrer mais. Até que viu um homem jovem, de cerca de quarenta anos, cabelos pretos mas ralos, face emagrecida e sofrida, inerte no caixão. A esposa estava inconsolável. Os parentes e amigos próximos estavam todos enxugando as próprias lágrimas. O filho estava desesperado". ...

Quantas vezes nos vimos nesta situação, sentindo mais do que outros a dor da perda.

"O mestre, ao ver o desespero do garoto, deu-lhe um abraço e perguntou o nome dele e de seu pai. Então, para espanto de todos, olhou para os presentes e, com sua voz grave, proferiu algumas palavras que lhes tirou o chão. Palavras que poderiam precipitar um tumulto.
— Por que vocês estão desesperados?
 O senhor Marco Aurélio não está morto.
As pessoas tiveram reações distintas diante da sua atitude ousada. Mas o mestre não se perturbou. Começou a indagar com voz alta e firme:
— Não lhes peço que silenciem sua dor, mas que silenciem o desespero. Não espero que estanquem suas lágrimas, mas estanquem os altos níveis de angústia. A saudade nunca é resolvida, mas o desespero deve ser aquietado, pois não honra quem partiu.
As pessoas soltaram seus braços e começaram a perceber que o homem de vestes estranhas e barba proeminente podia ser excêntrico, mas era inteligente. O filho do morto, Antônio, e a esposa, Sofia, fixaram-se nele. Em seguida, com ar de serenidade difícil de definir, adicionou:
— Marco Aurélio viveu momentos incríveis, chorou, amou, se encantou, perdeu, conquistou. Vocês estão aqui tristes com sua ausência, mergulhados num sentimento de vácuo existencial, porque o estão deixando morrer no único lugar em que ele tem de continuar vivo. Dentro de vocês. Vendo as pessoas mais interiorizadas, usou novamente seu penetrante método socrático:
— Que cicatrizes Marco Aurélio deixou em suas emoções? Onde ele influenciou seus caminhos? Que reações marcaram sua maneira de ver a vida? Que palavras e gestos perfumaram seu intelecto? Onde este homem silencioso ainda grita nos recônditos de suas histórias?
Após proferir essas perguntas seqüencialmente, o vendedor de idéias deu um choque de lucidez em todos os que ouviam sua voz, inclusive em nós, que o seguíamos. Mais uma vez ficamos envergonhados pela nossa falta de sabedoria e sensibilidade. Ele refez a pergunta inicial que abalara os ouvintes:
— Este homem está vivo ou morto dentro de vocês?
As pessoas disseram que estava vivo. Imediatamente ele fez um comentário que tirou as pessoas do desespero e abrandou os ânimos:
— O Mestre dos Mestres quis demonstrar que o velório pode ser um ambiente de lágrimas, mas deve ser acima de tudo um ambiente saturado de elogios e recordações solenes. O luto deve ser um ambiente perfumado, uma homenagem para quem partiu. Um ambiente para contar seus gestos, declarar suas reações, comentar suas palavras. A maioria dos seres humanos tem algo para ser declarado. Por favor, contem-me os feitos desse homem! Declarem o significado dele na vida de vocês. Seu silêncio deve alçar vôo de nossa voz.
Foram incríveis vinte minutos de homenagens. As pessoas não sabiam descrever a fascinante experiência emocional que haviam tido. Marco Aurélio estava vivo, pelo menos dentro das pessoas que o velavam. Nesse momento, o mestre olhou para nós, seus discípulos, e disse:
— Antônio, veja como seu pai foi um ser humano brilhante, apesar dos defeitos dele. Não refreie as lágrimas; chore tantas vezes quantas desejar, mas não lamente desesperadamente sua perda. Ao contrário, honre-o vivendo com maturidade. Honre-o enfrentando seus temores. Elogie-o sendo generoso, criativo, afetivo, sincero. Viva com sabedoria. Creio que, se seu pai pudesse usar minha voz neste momento para lhe falar algo, ele daria gritos para encorajá-lo a viver: ”Filho, vá em frente! Não tenha medo do caminho, tenha medo de não caminhar!”

Este breve trecho do livro de Augusto Cury, "O vendedor de sonhos" resume o quanto deveria ser uma cerimónia fúnebre daqueles que nos acompanharam nestas curtas férias que a morte nos dá! Por mim hoje foi um dia de breves recordações e dos pequenos momentos que partilhei com ele, sem esquecer o último e breve momento em concretizar mais um desejo, no dia das eleições presidenciais votou, olhou apara mim e encolheu os ombros, como que dizendo este já está o resto não sei!  

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